Os desafios da Educação no Brasil

A Educa Virtual apoia a “Semana da Educação” através de cursos on line e a opinião de profissionais conceituados das diversas áreas do conhecimento.
Abaixo temos um Artigo bastante esclarecedor de um deles, o Professor Nelson Gervoni, acompanhe:

Os desafios da educação no Brasil são muitos e de grande complexidade. Envolvem aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, entre outros. Esses aspectos estão relacionados de forma sistêmica, onde as ações e resultados de um ocasionam reações e resultados de outros, numa cadeia infinita ou viciosa de acontecimentos.

Mas há ainda um outro aspecto que deve ser levado em consideração quando falamos de educação. Trata-se da forma como concebemos a educação. Não há dúvida que a nossa concepção de educação ainda é pragmática e utilitarista. Educamos com foco nos resultados rápidos, não valorizando o processo, mas quase que unicamente o resultado.

E é interessante notar que esse pragmatismo tanto se dá no macro quanto no micro. Em outras palavras, é utilizado tanto no modelo educacional (macro) quanto, por exemplo, nas relações interpessoais na escola (micro). No macro os professores são obrigados a derramar conteúdos em seus alunos e os alunos são obrigados a decorarem para passarem na prova. O ensino não tem muita relação com a vida, é descontextualizado. O aluno é obrigado a saber, mas não sabe o que fazer com o que sabe. Outra característica do conteudismo pragmático no macro é o que se faz, por exemplo, no Ensino Médio. As escolas tidas como as melhores, são aquelas que mais aprovam no vestibular. E agora essa onda chegou às faculdades, que já estão preparando seus alunos para os melhores resultados no ENADE.

No micro, o pragmatismo é visto, por exemplo, nas relações interpessoais na escola, onde as ações também são direcionadas para os resultados rápidos. Por exemplo, se duas crianças da Educação Infantil brigam por um brinquedo, a professora “resolve” o problema tirando o brinquedo delas. Com isso perde-se a oportunidade de gerir o conflito conjuntamente com as partes envolvidas, gerando desenvolvimento para a vida.

Essa concepção não permite que haja nas escolas uma pedagogia que contemple outras áreas do desenvolvimento, além do cognitivo. Ocorre que uma criança não se desenvolve somente do ponto de vista cognitivo, havendo ainda o desenvolvimento afetivo, emocional e moral, que bem podiam ser trabalhados no ambiente escolar. As escolas, na sua maioria, investem apenas no desenvolvimento cognitivo ou intelectual da criança. Educadores insistem em afirmar que os aspectos afetivos e moral são de responsabilidade da família. No entanto a escola é um excelente ambiente para se tratar de tais aspectos, pois é nela que a criança amplia suas possibilidades de relações interpessoais. Ou seja, na família o campo de relação da criança é pequeno (se relaciona com seus irmãos, pais e parentes mais chegados). Na escola ela vai se relacionar com crianças de costumes e criação diferentes dos seus, se relacionam com outras figuras de autoridade (professores e outros profissionais) e vivenciam conflitos mais variados que em casa. Na idade em que as crianças se encontram é mais pedagógico trabalhar com elas os conflitos no local e no momento onde eles ocorrem, que mais tarde em suas casas.

A nossa educação tradicional não percebe que o desenvolvimento cognitivo não garante o desenvolvimento moral ou afetivo. Por exemplo, podemos ter uma pessoa de inteligência privilegiada que transgride leis e lesa centenas de pessoas. É bem verdade que os desenvolvimentos afetivo, emocional, social e moral só se dão se houver desenvolvimento cognitivo, mas a cognição não basta para gerar moralidade, afetividade, equilíbrio emocional e comportamento social adequado. Daí a necessidade de se trabalhar as demais áreas de desenvolvimento do aluno.

Mas, vale dizer que não basta trabalhar conteúdos morais nas transversalidades ou isoladamente, pois moralidade não se ensina, se vivencia num ambiente que seja favorável ao seu desenvolvimento. Quando uma escola investe no desenvolvimento moral e afetivo de seus alunos, possibilita maior diálogo entre eles. Possibilita a expressão de seus sentimentos, o que desfavorece as situações de bullying e outras formas de desrespeito, das quais nós, os professores, nos queixamos tanto quando estamos em sala de aula. Por outro lado, quando a escola não trabalha afetiva e moralmente os conflitos entre os alunos, possibilita um clima favorável à indisciplina e à violência. Aí, não sabendo como lidar com a questão, a escola utiliza-se do que chamamos de regrismo, que nada mais é que o exagero de regras visando evitar os conflitos. Assim, ao invés de se trabalhar, por exemplo, o uso de celulares na escola, coloca-se uma regra proibindo o seu uso, pois é bem mais fácil proibir que conversar democraticamente com os alunos sobre o assunto.

Outro fator que deve ser considerado sobre as regras é que seus princípios – quando existem – são obscuros até mesmo pelos professores. Aí, quando são indagados pelos alunos sobre a razão de tal proibição, simplesmente respondem que “é regra da escola e por isso temos de cumprir”. As regras na escola são muito mais convencionais que morais. Por exemplo, uma aluna reclama com a professora que o colega a xingou de piranha e esta lhe diz para não se importar, pois ela não é peixe. Na mesma aula outro aluno é levado para a diretoria porque desobedeceu a norma que proíbe o uso de boné! Aí as crianças interpretam a seguinte mensagem oculta: ofender moralmente um colega pode, usar boné não pode. Com isso passam a valorizar mais as regras convencionais que as morais.

*Nelson Gervoni é pedagogo, psicanalista e especialista em relações interpessoais na escola. É membro do GEPEM, da FE da UNICAMP, professor do Ensino Fundamental na Rede Estadual de São Paulo e professor universitário.

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