AUSTERIDADE E EFICIÊNCIA

O QUE ELES DIZIAM…

Mais um artigo da série “O que eles diziam!” Agora da segunda quinzena de novembro. O que será que estava na capa da revista EXAME há 10 anos? Confira.

 Boa leitura!

EXAME – Edição 754 – 2ª quinzena de novembro/2001

A capa da revista Exame, da 2ª quinzena de novembro de 2011, traz a entrevista com um ilustre guru da administração moderna, Peter Drucker, e mais nove empresários e executivos brasileiros. Vamos analisar quais eram as preocupações da época e qual era a visão do guru em relação ao nosso país.

Lembrando que os Estados Unidos estavam saindo da crise após os ataques de 11 de setembro, a primeira pergunta da entrevista abordava uma comparação entre o Brasil dos anos 50 e a atualidade de então, 2001. Peter Drucker respondeu que, apesar de todas as dificuldades e barreiras continentais, principalmente vindas das regiões Norte, Centro Oeste e Nordeste, o Brasil estava evoluindo, e que, assim como qualquer outro país do mundo, evoluia em vários aspectos, como social, econômico e psicológico.

A segunda pergunta foi feita por Luiz Ernesto Gemignani. Ele queria saber sobre a situação econômica do Brasil, que passava por dificuldades antes mesmo dos ataques terroristas nos EUA. Luiz perguntou se o Brasil continuaria sendo o país do futuro. O guru foi claro ao afirmar que o empresariado brasileiro tinha que entender que o futuro não estava na economia mundial, mas sim na economia interna do país que tinha muito para crescer naquele momento.

Na sequência, Maria Silva Bastos perguntou sobre o destino da globalização, visto que alguns países, dado o momento da economia, estavam se fechando. A resposta de Peter Drucker talvez tenha sido a mais longa de todas. Foi baseada na desmitificação da ideia de que a globalização não era somente econômica, mas, com a internet e com a concorrência aberta, a globalização estava totalmente ligada à informação.

Depois foi a vez de Roberto Setúbal, que abordou o tema da tecnologia e da informação. Peter Drucker respondeu que grandes avanços ocorreram, mas que veríamos os grandes impactos tanto da tecnologia como da informação aplicados na educação e na saúde, e que estes seriam mercados em prosperidade nos próximos 20 anos, a partir de 2001.

A quinta pergunta foi de Ricardo Semler. Ele abordou o tema das “Ponto-com”, que passavam por uma crise no momento. Peter foi firme ao dizer que houve ingerência e negligência por parte de seus gestores, mas que fundamentalmente faltou compreensão sobre as realidades econômicas.

Em seguida, Maurício Botelho perguntou a respeito do posicionamento das empresas dos anos 70, que era de verticalização e diversificação, e que naquele momento elas estavam tendendo a se especializar e focar em alguns negócios. Ele queria saber se isso era apenas uma tendência ou se o futuro dos negócios seria dessa forma. Peter Drucker disse que o caminho era focar nos produtos e serviços, mas diversificar mercados, geograficamente falando, principalmente para os países emergentes.

Viviane Sena também abordou o guru, perguntando sobre o que significava bom relacionamento entre uma equipe. Peter disse que até pode haver desavenças nas equipes, mas fundamentalmente o que deve prevalecer é o orgulho e a união pelo resultado!

O próximo a perguntar foi Henri Philippe Reichstul, que focou sua pergunta nas pessoas, na qualidade dos talentos e na retenção dos mesmos. Peter Drucker foi claro ao dizer que para atrair os principais talentos e retê-los, a empresa deveria estar posicionada a ponto de as pessoas quererem trabalhar nela. A segunda grande ação era desenvolver os talentos, mas, acima de tudo, tratando os funcionários como pessoas e não como empregados.

Nildemar Secches queria saber o que ocorreria com uma empresa que tivesse aplicado todos os modelos propostos pelos gurus que, até aquela época, eram tidos como os salvadores. Peter Drucker disse claramente que essa empresa não estaria mais atuante no mercado.

O último a questionar Peter Drucker foi Guilherme Leal, que tocou no tema da liderança, embasado no livro “A Sociedade Pós-Capitalista”, especificamente sobre o tema da pessoa instruída, e como seria essa pessoa no futuro, bem como sobre a liderança no futuro. Peter Drucker disse, naquela época, que a educação para formar líderes do futuro seria uma educação continuada, perene; que seria um profissional especialista e não mais um generalista, mas não expressou as metas e conteúdos da futura educação superior.

O QUE DIZEM HOJE…

VOCÊ SA – Edição 1005 – 2ª quinzena – novembro/2011

Que lição de vida foi essa entrevista do guru Peter Drucker há 10 anos! Por incrível coincidência, na capa da revista EXAME de 2011, também temos um guru da gestão empresarial. Agora, porém, é um brasileiro, Jorge Gerdau, que acaba de assumir um posto no governo Dilma, para dar um choque de gestão na máquina pública brasileira. Vejamos o que ele está fazendo hoje, 10 anos depois das dicas do guru Peter Drucker.

A revista EXAME aborda um pouco da situação atual do Brasil, seus números, projetos e ações futuras, dando um pano de fundo para entendermos as ações propostas por Gerdau. Neste artigo não falaremos dos detalhes dos projetos e números, mas especificamente da entrevista que a revista fez com o empresário que terá este desafio pela frente. Vejamos os principais pontos abordados:

No primeiro posicionamento de Jorge Gerdau ele disse que nunca pretendeu ter um cargo executivo público, mas que encara o desafio como “causa”, que significa, literalmente, brigar pela melhoria da gestão pública brasileira, em busca de bons resultados e também melhores ações nas três esferas executivas.

Esta ação de melhoria da máquina pública já vem sendo realizada desde 2007, quando ele passou o bastão da Gerdau para seus sucessores. Desde então vem desempenhando este papel, que agora foi oficializado num posto no governo federal.

Para ele a única forma de garantir o crescimento futuro é através desta gestão “profissionalizada”, pois, atualmente, o Brasil só conseguirá aumentar seus investimentos se for mais produtivo com sua arrecadação.

A meta de melhoria está em torno de 10% a 15% do orçamento, que ele pretende atingir através dos conceitos de austeridade e eficiência. Inicialmente, o empresário abordou duas frentes importantes de trabalho que atrasam o crescimento do país: os transportes e a previdência privada.

Mas, como nem tudo na vida são flores, Jorge Gerdau já enfrentou a primeira ação sem resultado, em 2008, com a meta de redução de 2 bilhões de reais no Ministério do Planejamento, que não se concluiu. Ele atribui o fracasso ao fato de necessitar de sinergia com outros ministérios, além do Ministério do Planejamento, e isto implicou em resistência dos demais Ministérios. Finalizando a entrevista, Jorge Gerdau fala de seu sonho e de sua frustração, que é o fato de o país não ter uma visão de futuro. Seu grande sonho é deixar o país alinhado em ações, com uma visão de futuro, que abranja todas as esferas da economia, educação, emprego, indústria, etc., pois assim as estratégias futuras farão sentido!

PONTO DE VISTA…

Como vimos, temos dois grandes gurus, com 10 anos de diferença entre as duas reportagens. Para mim fica claro que se pegássemos as 10 respostas de Drucker e atualizássemos para os dias de hoje, entregássemos a Jorge Gerdau, e ele aplicasse cada um dos conceitos, teríamos grande sucesso. Veja que, ao longo da reportagem de 2011, alguns pontos podem ser claramente aplicados. O primeiro e mais evidente é o fato de os Ministérios se acharem mais importantes que o todo. Como resultado não atingiríamos a meta de redução nos custos de um dos ministérios. Aplicando o conceito de Drucker sobre relacionamento de equipes, se os ministérios tivessem orgulho pelo resultado, ele seria atingido.

Outro conceito fundamental de Drucker é que as empresas, para atrair talentos, precisa se posicionar, despertando o desejo das pessoas quererem trabalhar nessas organizações. Isso não é diferente da frustração de Jorge Gerdau, quando ele diz que o país não tem visão de futuro, e que assim nenhuma empresa evolui nem cria estratégias vencedoras. Que dirá um país que não sabe aonde quer chegar, nem mesmo nos conceitos mais básicos, como saúde, educação, indústria, etc.

Fica registrado, então, nosso ponto de vista: ações e estratégias duradouras não devem se basear em modismos, mas sim em ações concretas, pautadas numa visão de futuro, e controladas através de indicadores claros de gestão e desempenho, ou seja, austeridade e eficiência.

Abraços e até mais!

Fabio Fachini
E-mail: fabio.fachini@educavirtual.com.br
Site: www.educavirtual.com.br

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